domingo, 16 de fevereiro de 2014

10º Episódio - O "desenvolver" da esquizofrenia

          
              Estudos epidemiológicos têm encontrado diversos fatores associados a incidência e à prevalência de esquizofrenia na população mundial. Aleman et al., (2003) apud Perkins e Lieberman (2013) falam que metanálises concluem que a esquizofrenia é cerca de 1,4 vezes mais comum em homens que em mulheres. Outros estudos apontam para o desenvolvimento através do meio ambiente no surgimento do risco de esquizofrenia como nascer e viver em área urbana que está associado à predisposição ao risco aproximadamente 1,9 vezes maior em homens e 1,3 vezes maior em mulheres em comparação com populações não urbanas (kelly et al., 2010).
            Para Perkins e Lieberman (2013) talvez a principal forma de observar o risco de desenvolver esquizofrenia seja analisando o risco de morbidade ao longo da vida, que é a prevalência da doença incluindo todas as pessoas em um corte de nascimentos. A média do risco me morbidade de esquizofrenia (porcentagem de pessoas que irão desenvolver esquizofrenia em suas vidas) é de 0,7%; entretanto, essa proporção varia de 0,3 a 2,7% em diferentes populações. Desse modo, a prevalência mundial de esquizofrenia de 1% frequentemente mencionada é uma aproximação razoável, mas parece ser maior do que a indicada pelos estudos epidemiológicos recentes.

 “A epidemiologia estuda a distribuição das doenças nos grupos populacionais quanto a sua magnitude e natureza, procurando investigar fatores determinantes na etiologia e prognóstico. Considera-se a tríade epidemiológica sujeito, agente e ambiente”.
(MARI in SHIRAKAWA et.al., 2001, p.25)

            Para Mari (2001) considera-se que o agente no caso da esquizofrenia pode estar relacionado aos fatores intrínsecos (Genéticos) e extrínsecos (socioambientais e familiares), a epidemiologia da esquizofrenia abrange áreas como a clínica psicológica e psiquiátrica, a psicofarmacologia, a genética, a antropologia e a sociologia.
            A maioria dos indivíduos que desenvolvem um transtorno psicótico com características de esquizofrenia terá uma doença crônica e a gravidade dos sintomas é muito variável, bem como a gravidade da disfunção social e profissional que podem acometer o sujeito.
Segundo Perkins e Lieberman (2013) um atendimento pré-natal cuidadoso (incluindo suplementos vitamínicos apropriados e prevenção das complicações pré e perinatais, incluindo doenças infecciosas maternas, exposição a eventos estressantes de vida e complicações obstétricas) pode influencias no risco da doença e, bem como em sua gravidade.
O curso da esquizofrenia é bastante heterogêneo, com resultados que vão desde a recuperação completa à disfunção crônica. Vários fatores estão associados aos desfechos ligados ao esquizofrênico como o ambiente familiar, sua predisposição genética, estressores no trabalho e nas relações interpessoais; diversos tratamentos com antipsicóticos e psicoterapia e intervenções podem aumentar a probabilidade de recuperação.
E como disseram Lieberman et al., (2008) a prevenção de episódios recorrentes parece ser fundamental para prevenir a evolução da doença. É importante destacar que as intervenções que incentivam o apoio familiar e social também podem ter impacto para um melhor prognóstico do esquizofrênico.


REFERÊNCIAS
LIEBERMAN, Jeffrey A.; STROUP, T. Scott; PERKINGS, Diana O. Fundamentos da Esquizofrenia. Porto Alegre: Artmed, 2013.

NOTO, Cristiano S.; BRESSAN, Rodrigo A. Esquizofrenia: avanços no Tratamento Multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2012.


MARI, Jair J. A evolução dos critérios diagnósticos da esquizofrenia. In O desafio da Esquizofrenia. Edit. Itiro Shirakawa et.al. São Paulo: Lemos Editorial, 2001.

9º - Episódio – Eita, e agora genética?

A relação entre o gene que herdamos dos nossos antepassados e os traços (alterações do comportamento) tem fascinado um grande número de pesquisadores durante o século XX. Diversos trabalhos têm sido realizados visando melhor entender se e como é transmitida de geração em geração as mais variadas características funcionais e patológicas da nossa mente, uma quantidade considerável de estudos genético-moleculares tem se concentrado na esquizofrenia.
Comparações de gêmeos monozigóticos discordantes para esquizofrenia sugerem que quase todos os gêmeos afetados tem um desempenho cognitivo pior do que o gêmeo não afetado em testes cognitivos (Goldberg et al., 1990 apud. Lieberman et al, 2013)
Segundo Silva et al. (2002) não restam dúvidas sobre a importância da influência genética na esquizofrenia, mas a natureza exata dessa da transmissão genética ainda não está clara. Acredita-se que o componente genético consiste de múltiplos genes agindo de forma aditiva, sendo que o genótipo predisponente à esquizofrenia só seria manifesto quando o número de genes e de fatores não-genéticos presentes fosse maior do que um valor limiar. A Herança Multifatorial com Efeito do Limiar é o padrão mais aceito no que se refere a influência genética na esquizofrenia, sendo a base para a maioria dos estudos realizados na área.
            



REFERENCIAL TEÓRICO

LIEBERMAN, Jeffrey A.; STROUP, T. Scott; PERKINGS, Diana O. Cap. 4 Déficits neurocognitivos. Fundamentos da Esquizofrenia. Porto Alegre: Artmed, 2013. 

SILVA, André luis Ferreira da; AGUIAR, Paulo Rogério Dalla Colletta de; LOPES, Renan; GHENO, Giovani; CASTRO, Elizabeth de Carvalho; FERRÃO, Ygor Arzen.  Genética da Esquizofrenia: um estudo de revisão. Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul;24(2):163-171, maio-ago. 2002.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

8º Episódio - Esquizofrenia e religião

“Atribuem os médicos tudo a causas naturais e julgam poder dar combate ao mal com a sua medicina. Em consequência, muitos erros se cometem, que influenciam às vezes de modo fatal, sobre o corpo do penitente”
(Scaramelli, apud. Barreto, 1978,p.37)

Michel Foucault (1999), em seus estudos sobre a loucura, elaborou o dimensionamento psicológico e social da doença mental. É importante enfatizar que a idade clássica rejeitou no mesmo nível as doenças mentais e os delinquentes, desenvolvendo-se, a partir daí, as estruturas do internamento.
            Durante muito tempo a doença mental não foi encarada como patologia, mas era como um fenômeno relacionado à vida espiritual dos indivíduos. Assim podemos concluir que em culturas diferentes e em épocas diversas, diferentes explicações foram dadas ao que podemos definir, hoje, como esquizofrenia.
            Na Grécia Antiga, por exemplo, a “loucura” podia ser interpretada como castigo dos deuses ou, em certos casos, como sinal de inspiração divina. Os trabalhos nos templos e oráculos frequentemente relacionavam-se a esta ideia.
            Segundo Barreto (1978), com o advento do cristianismo, surge e propaga-se a ideia de “possessão demoníaca”. Satanás – o anjo caído e líder dos anjos rebeldes, os demônios - seria o grande responsável pela loucura humana. Assim, dentro da tradição cristã, buscou-se interpretar os sinais (particularmente os sinais comportamentais) identificados de modo relacionado à religião, criando uma cultura própria sobre o tema, com explicações diferenciadas e de base religiosa.
            Penso que a religiosidade é um fator importante para o desenvolvimento do sujeito, já que pode definir como o mesmo reconhece a si e como interage com o mundo que o cerca. Não é preciso trazer referências vindas de livros para observar o quanto uma educação religiosa pode estar contida no discurso e no comportamento de uma pessoa e da comunidade com a qual compartilha as normas e dogmas da instituição religiosa ao qual se está vinculado.
Para Barreto (1978), embora os argumentos científicos e religiosos não se harmonizem quanto à esquizofrenia, não se pode ignorar o quanto a visão religiosa ainda influencia o imaginário popular e consequentemente repercute no dia a dia das pessoas. O gradual desenvolvimento científico não apenas tem conduzido a um afastamento em relação a visão mística do mundo, mas também tem proposto uma nova visão e interpretação das manifestações psicopatológicas.
Todas as pesquisas e tratamentos desenvolvidos até aqui não foram capazes de se sobrepor as críticas daqueles que adotam posturas relacionadas a sua fé. Estes veem como uma abordagem simplista a que é feita pelos médicos, psicólogos e pesquisadores em geral.
Partindo dessa discussão estou colocando abaixo vídeos espiritas e evangélicos que tratam sobre a esquizofrenia a partir de um olhar religioso. É interessante ter a possibilidade de questionar a verdade e empirismo da ciência e duvidar dos poderes sobrenaturais atribuídos pela fé.

A esquizofrenia a luz do espiritismo - por Luiz Fernando


João Lourenço (Espirita) - Esquizofrenia


Caio Fábio - Pastor e Psicanalista

Papo de Graça 122 - Esquizofrenia, Mentes Adoecidas e Delirantes (07-12-2009)


REFERÊNCIAS

BARRETO, Djalma. O alienista, o louco e a lei. Petrópolis-RJ: Editora Vozes, 1978.
FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. 6.ed. São Paulo: Perspectiva, 1999.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

7º Episódio - Vídeos-Pílula

Olá Pessoas,


Dessa vez trago para vocês alguns vídeos curtos que falam um pouco sobre o combate ao estigma atribuído a sujeitos com transtornos mentais como sendo pessoas violentas e instáveis. 
Esses dois vídeos foram produzidos por uma campanha realizada na Inglaterra chamada "Time to Change" que mostra na TV depoimentos de pessoas que lutam para ter uma vida tranquila nos ditos padrões de "normalidade". Para alegria geral dos que não falam inglês consegui encontrar os vídeos com legenda! 


Diga não ao preconceito contra pessoas com transtornos mentais!






Abaixo segue também o link da campanha inglesa  dos vídeos do youtube e de um blog nacional que fala sobre a esquizofrenia para portadores e familiares.

Campanha inglêsa





Portal sobre Esquizofrenia para portadores e familiares http://entendendoaesquizofrenia.com.br/website/


6º Episódio - Documentário 02



“Um tratamento que vai muito além de apenas tomar medicação”

“A luta de pessoas com transtornos mentais para levar uma vida comum é diária”





O programa “A liga” começa com a emocionante história de Wagner que possui esquizofrenia desde os 16 anos. Com depoimentos dos familiares e do paciente são relatados os sintomas de alucinação e delírios apresentados por ele. É interessante observar a forma como se é debatida a questão da realidade e da fantasia pelo Wagner e de como a partir da criação de sua própria lógica o mesmo define seu estado de consciência.
Ao mostrar o CAPS realizando o trabalho em grupos temos a aparição de Catarina que deseja voltar a Pernambuco e temos também a explicação de Jeni (gestora do CAPS São Bernardo) do objetivo e do funcionamento da instituição que cuida de sofrimento grave e persistente, esquizofrenia e neuróticos graves.

“Os CAPS promovem a reinserção social das pessoas com transtornos mentais por meio do lazer, do trabalho e do fortalecimento dos laços familiares e comunitários” (A Liga, 2013, 00h09min07seg)

Ainda são mostrados procedimentos num atendimento de urgência psiquiátrica, processos de trabalhos terapêuticos em grupo e como pessoas como transtornos mentais podem ser inseridas no ambiente de trabalho sem descriminação e pré-conceito.
Aproveitem esse documentário rico em depoimentos e descrição de vivências de pessoas que lutam todos os dias para fazer valer seus direitos a cidadania e respeito.

Diga não ao preconceito contra pessoas com transtornos mentais!


Programa "A liga" -  TV Bandeirantes (BAND) exibido no dia 10-09-2013

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

5º Episódio – Esquizofrenia e processos mentais

Há quase dois séculos, Benjamin Rush (o pai da psiquiatria norte-americana) afirmou:

“As doenças da mente parecem ter sido envolvidas em um mistério... Eu tenho me empenhado em trazer essas doenças para o mesmo nível das outras doenças do corpo humano, a fim de demostrar que a mente e o corpo são movidos pelas mesmas causas e estão sujeitos as mesmas leis.”
(Benjamin Rush apud. Cunningham MG et al., 2006, 127-40)


            
        Até pouco tempo muito se discutia sobre se a esquizofrenia realmente implica em déficits cognitivos, embora o DSM-IV (2000) já tivesse incluído sete referências a eles na descrição da doença. Antes de prosseguir com a postagem gostaria de lembrar que este tópico do nosso episódio de hoje ainda não é consenso para a psiquiatria e psicologia. Portanto, evitem ler as próximas linhas como uma verdade absoluta que enquadra a todos os portadores da esquizofrenia, pois devemos lembrar que ela se manifesta de forma muito particular em cada indivíduo e que não necessariamente todos os déficits serão acometidos no portador de uma única vez. Tais aspectos da cognição têm sido resultados de longas pesquisas, aplicação de testes psicológicos e estudos que tentam medir e comparar o desempenho de indivíduos esquizofrênicos com indivíduos-controle, ditos “saudáveis”.
De acordo com Lieberman (Lieberman et al, 2013), cada vez mais pesquisadores creem que déficit cognitivo é uma característica fundamental da doença e não simplesmente o resultado de sintomas ou tratamentos da esquizofrenia. A razão disto é que os resultados das pesquisas mostram que poucas funções cognitivas dos pacientes permanecem semelhantes às dos indivíduos saudáveis em situações de crise e após a hospitalização.
Segundo Noto & Bressan (2012) muitos estudos revelam que a cognição explica entre 20 e 60% da variância do desfecho funcional na esquizofrenia, E os portadores apresentam empobrecimento em importantes aspectos funcionais como a diminuição da autonomia no trabalho, lazer, aprendizado e manutenção das relações interpessoais. Embora existam uma ampla quantidade de déficits cognitivos que podem ocorrer tanto em estágios iniciais do processamento quanto em estágios posteriores da ativação das funções superiores, as facetas cognitivas na esquizofrenia podem ser genericamente organizadas em sete dimensões:

ü  Memória de trabalho (memória de curto prazo): Componente central do déficit cognitivo na esquizofrenia. Está relacionada aos desfechos funcionais, como em situações ligadas ao emprego (lembrar-se de sequências como número de telefones, senhas e informações recentes).

ü     Vigilância e atenção: É a capacidade de manter a atenção ao longo do tempo. Os problemas de vigilância podem resultar na dificuldade de acompanhar conversas sociais e incapacidade de seguir instruções importantes; atividades simples, como ler e assistir TV torna-se trabalhosas ou impossíveis;
ü  Aprendizagem e memória verbal: A aprendizagem de novas informações, retenção de informações recém-adquiridas ao longo do tempo e reconhecimento de um conteúdo previamente apresentado;
ü Aprendizagem e memória visual: Se correlaciona com estabilidade no trabalho, sucesso da reabilitação psicossocial e  qualidade de vida;
ü    Raciocínio e resolução de problemas: A inabilidade ou falta de repertório de respostas para verificar o método que será utilizado para atingir o objetivo final, ou mesmo a dificuldade em dar os primeiros passos, interpõem-se como obstáculos à resolução do problema. Em muitos casos as respostas precisam ser desenvolvidas; ou pela aquisição de pacotes de informação ou pelo treino orientado;
ü   Velocidade de processamento: A redução na velocidade de processamento das informações pode prejudicar a capacidade de se manter em sintonia com as atividades relacionadas a uma tarefa que deve ser executada e que são frequentemente realizados por pacientes com esquizofrenia; e
ü    Cognição social: Dificuldade do reconhecimento das emoções em expressões faciais e a percepção de dicas sociais. A percepção das emoções negativas (medo, tristeza e raiva) pode ser particularmente prejudicada em portadores de esquizofrenia.

No geral, os portadores da esquizofrenia têm déficits maiores na aprendizagem do que na retenção das informações. Segundo Green (1996) apud. Lieberman et al. (2013) e muitas evidências empíricas (a partir de testes psicológicos como o WCST e o Digit Sylbol Test) apontam para a ligação entre a perda da memória verbal e os déficits sociais em portadores com esquizofrenia. Os pacientes com esquizofrenia que apresentam prejuízos nas medidas de funções executivas têm dificuldades em se adaptar às rápidas mudanças no mundo ao seu redor.
Para os psiquiatras é consenso de que o déficit cognitivo é uma característica fundamental no diagnóstico da esquizofrenia e que o mesmo, que é verificado em níveis graves, provavelmente estaria presente na maioria dos portadores. E, uma vez que estes aspectos têm o poder de impactar negativamente a vida social, é muito importante conhecê-los, visando a oferecer maior compreensão e ajuda aos pacientes. 
            Os déficits cognitivos podem ser observados desde muito cedo e, em se tratando de crianças com risco de desenvolvimento da esquizofrenia e com histórico familiar, os estudos como o de Cornblatt et al (apud Lieberman et al, 2013) sugerem a possibilidade de prever quais delas podem vir a efetivamente desenvolver a doença no futuro a partir de avaliações cognitivas e seu déficit de atenção.
            Em jovens, estudos como o de Caspi et al. (apud Lieberman et al., 2013) têm mostrado que após a manifestação da doença e a hospitalização do paciente, suas funções cognitivas são significativamente prejudicadas, mas que a maioria dos problemas cognitivos podia ser verificada antes do primeiro episódio psicótico (Davidson et al, 1999 – apud Lieberman et al, 2013). Este ponto é importante porque são feitas muitas críticas à medicação utilizada no tratamento antipsicótico e alguns levantam a hipótese de que ela possa interferir na avaliação cognitiva do paciente. Numerosas pesquisas sugerem o contrário, porém, e ainda não há tratamento farmacológico comprovado para déficits neurocognitivos (Davidson et al, 2009; Keefe et al, 2007 – apud Lieberman et al, 2013).  
            Bem, a apresentação de déficit cognitivo auxilia no processo diagnóstico da esquizofrenia, que se dá através de constatações do rendimento intelectual e social do sujeito. A simples observação do comportamento pode auxiliar na identificação dessas limitações cognitivas, porém não se deve dispensar uma avaliação realizada por um neuropsicologo afim de melhor direcionar ações psicoterápicas que ajudem o esquizofrênico a ter uma maior qualidade de vida.

REFERÊNCIAS

Imagens:
1 - http://www.brasil247.com/get_img?ImageWidth=650&ImageHeight=674&ImageId=302527
2 - http://1.bp.blogspot.com/_Qc52CsD1rDM/TB1eQRfgGoI/AAAAAAAAABU/_gMecNO0Q1U/s400/charge-1.png

LIEBERMAN, Jeffrey A.; STROUP, T. Scott; PERKINGS, Diana O. Cap. 4 Déficits neurocognitivos. Fundamentos da Esquizofrenia. Porto Alegre: Artmed, 2013.


NOTO, Cristiano S.; BRESSAN, Rodrigo A. Cap. 14 Reabilitação cognitiva. Esquizofrenia: avanços no Tratamento Multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2012. 

4º Episódio - Rouco ou Louco?

“Em geral, gostamos de chamar de insanidade aquilo que não entendemos.”
C. Jung


           É comum associar loucura com tudo àquilo que possa parecer novo ou diferente do que estamos costumados a ver em nosso dia a dia. Fazemos essa associação porque é mais fácil atribuir um rótulo do que evidenciar a possibilidade de outro ponto de vista ser apresentado. E assim, muitas vezes, acabamos por identificar como “estranhas” pessoas ou ideias que não correspondem a padrões pré-estabelecidos e convencionados socialmente como “normais”.
Muito do preconceito em relação aos esquizofrênicos parte de especulações como o de que seriam pessoas violentas, despreocupadas com a higiene, inconstantes e perigosas. Esses pensamentos foram validados socialmente como sendo uma verdade.  
Abaixo segue uma tirinha da Turma da Mônica retirada do livro "A política da loucura - A antipsiquiatria" de Duarte Junior (1987) para que possamos fazer algumas reflexões 

Observação: Ao clicar em cima da figura com as tirinhas você poderá obter uma melhor visualização do texto!.               

Agora vamos falar um pouco sobre o quadrinho e sobre a loucura?

No livro História da loucura na idade clássica Foucault (1999) diz que ao longo da história da humanidade, a loucura tem sido objeto de saberes, interpretações e práticas que respondem a condições sociais objetivas, perspectivas econômicas, científicas e culturais próprias de cada época. Ele ainda destaca a presença da loucura na arte e na literatura, relacionada a supostas “manifestações malignas”, às “fraquezas humanas”, ao “erro” e à “desrazão”.
Segundo Foucault (1999) a partir do século XVIII e início do século XIX, como efeito da Revolução Francesa, com o nascimento dos asilos e posteriormente dos hospícios, a loucura assume gradativamente uma conotação de “doença mental”. Para o autor Frayze-Pereira (1985) no livro “O que é loucura?” a loucura/doença mental é uma questão da psiquiatria e psicologia não concluída e longe de ser resolvida e por isso é tema de tantas discussões no meio acadêmico e científico.
No mesmo livro Frayze-Pereira cita a obra “O Normal e o Patológico”, do filósofo Georges Canguilhem, que afirma o indivíduo é doente sempre em uma relação: seja em relação aos outros, seja em relação a si mesmo e que o “normal”, não somente por etimologia, não passa de uma norma.

“[...] é preciso notar que uma norma, uma regra, se propõe como um modo possível de eliminar uma diferença. E ao se propor desse modo a própria norma cria a possibilidade da sua negação lógica [...] Nesse sentido, ‘o anormal, enquanto anormal, é posterior à definição do normal, é a negação lógica deste’ [...] uma norma só vem a ser norma, exercendo a sua função normativa ou de regulação, mediante a antecipação da possibilidade de sua infração [...] O anormal é uma relação: ele só existe na e pela relação com o normal. Normal e anormal são, portanto, termos inseparáveis. E é por isso que é tão difícil definir a loucura por si mesma.”
 (CANGUILHEM APUD. FRAYZE-PEREIRA, 1985,p. 21-22)

A partir do processo de normatização da loucura Duarte Junior (1987), diz que a “loucura” mais característica é aquela que foi classificada como esquizofrenia, que em grego significa literalmente, “mente partida”, ou mente dividida e sob esse rótulo genérico são classificados todos aqueles que de alguma forma perdem o contato com a realidade, isolando-se em um mundo particular e fantasmagórico. Sob o título de esquizofrênicos estão os “loucos” mais característicos, aqueles que em nosso dia a dia, são personagens de piadas.
O autor diz ainda que a psicologia tenta entender o comportamento humano com os mesmos métodos utilizados pelas ciências naturais, como a medicina (psiquiatria). Onde se isola o indivíduo de sua história psíquica e procura-se classificar o seu comportamento. Essa ideia é reforçada através de psicólogos que muitas vezes tentam enquadrar determinados comportamentos como sendo culturalmente inadequados e psicopatológicos em entrevistas dadas a veículos de comunicação, numa tentativa de enquadrar o sujeito na tal norma estabelecida como a adequada, e isso se deve um pouco a história da própria psicologia enquanto ciência, como já diz Prayze-Pereira:

(No século XVIII) [...] surge uma psicologia, isto é, um conhecimento da interioridade psicológica do homem, a partir da consciência pública tomada como forma universal e válida da razão e da moral para avaliar os homens. Ou seja, em sua raiz o conhecimento psicológico encontra-se inteiramente sustentado pela moral.”
(FRAYZE-PEREIRA, 1985, p. 81)

Ao analisarmos o inicio do quadrinho podemos observar quanto o personagem Cascão já está inserido num contexto cultural de padronização dos comportamentos e de expectativas sociais sobre o estado de loucura. Ao receber a mensagem do Cebolinha de que o mesmo estava rouco, esqueceu que seu amiguinho trocava o R pelo L e logo lhe atribuiu o status de louco. Percebemos o estranhamento do Cebolinha diante das falas feitas pelo Cascão.
Assim como nas escolas, universidades, locais de trabalho e o próprio meio familiar, as pessoas, aqui representadas pela Mônica e Cascão, tentam observar com distanciamento e provar/diagnosticar a “loucura” no outro constantemente.
O Cebolinha ao ver que tem um besouro vivo em seu sapato, sai correndo, volta com um pedaço de pau e tentar mata-lo, após retirar o bicho, Cebolinha tentar coçar as costas em um local não habitual sem conseguir alcançar com os dedos vai até a árvore. Para seus amigos ele pareceu estar fora de si, aparentando uma sintomatologia estereotipada da esquizofrenia (que é por muitas pessoas ainda chamada apenas de loucura) através de um comportamento desorganizado culturalmente inapropriado e com a presença de alucinações. E. Beuler in Frayze-Pereira (1987) define esquizofrenia como um termo

“Para caracterizar certos fenômenos como a fragmentação do fluxo do pensamento e a ruptura do contato afetivo com o ambiente”
(E. BEULER apud. FRAYZE-PEREIRA, 1987, p. 16).

 Nossos personagens ao observarem o comportamento do Cebolinha à distância concluíram que de fato ele estava “louco”. A Mônica e o Cascão também mudam seu comportamento demonstrando medo diante do amigo que agora é considerado “louco, violento e imprevisível”.

“O comportamento do indivíduo, quando retirado do seu contexto perde a significação e passa a ter o significado que os observadores lhe imputaram. Se a interpretação inicial já era na direção da “loucura” do Cebolinha, os dados observados apenas confirmaram tal interpretação”.
(DUARTE JUNIOR, 1987. p.42)

Também podemos observar que na sequência do quadrinho onde eles deparam-se num beco sem saída com a presença do Cebolinha eles começam a falar frases desconexas, reforçando a ideia de que conversa de “louco” é estabelecida com coisas sem muito sentido.

“O Eu nunca é louco: louco é o Outro. A loucura só pode ser reconhecida em mim através do olhar do Outro: o Eu nunca a percebe em si. Assim, é um conflito que se estabelece: o conflito do Eu x Outro.
(BIRMAN in BEZERRA JUNIOR , 1992, p.19)

Quando a mãe do Cebolinha o encontra e entrega as pastilhas para sua rouquidão o mal entendido é esclarecido. Porém, mesmo após saberem o contexto do comportamento apresentado pelo Cebolinha a Mônica e o Cascão, não satisfeitos fazem mais uma vez um diagnóstico (problema de dicção devido à troca do L pelo R) e tentam condicionar seu amigo a aprender a pronunciar o R de forma adequada.

Bem, quantas vezes nós não tentamos tomar a existência humana como algo que deve ser ordenado e lógico como nascer, crescer, trabalhar, reproduzir e morrer. Estaria essa lógica certa? E se a esquizofrenia não for o que pensamos que é? E se as características que a definem não forem visíveis e dramáticas, mas sim, ao contrário, extremamente discretas compartilhadas por cidadãos comuns que jamais entrariam em uma clínica psiquiátrica, ou fariam acompanhamento com um psicólogo?
Acredito que muitas vezes cometemos o mesmo erro que o Cascão e a Mônica, e esquecemo-nos de perguntar – Será que ele quis não quis me dizer outra coisa? Porém, parece ser mais fácil enquadrar as pessoas em estereótipos sem ao menos dar a elas a oportunidade de apontar seu ponto de vista.

É fundamental perceber a "verdade" na loucura. Não há vazio a ser preenchido, não é necessário “enquadrar” o chamado louco, moldá-lo seguindo parâmetros de normalidade para que ele seja sujeito. A experiência da loucura sugere a exposição da subjetividade de modo diferente do padrão, isto é, diverso daquele modo definido socialmente como “normal”, o que não retira do louco sua condição de sujeito.

(BIRMAN in BEZZERRA JÚNIOR, B. 1992, p.19)


Boa reflexão e até a próxima postagem!

Quadrinho retirado do capítulo V do livro "A política da loucura: a antipsiquiatria"
de João Francisco Duarte Junior.

REFERENCIAL TEÓRICO

BIRMAN, J. A cidadania tresloucada. In: BEZERRA JÚNIOR, B.; Amarante, P. (Orgs.).                               Psiquiatria sem hospício: contribuições ao estudo da reforma psiquiátrica. Rio de Janeiro:                             Relume-Dumará, 1992.

DUARTE JUNIOR, João Francisco. A política da loucura: a antipsiquiatria. 3ªed.                                       Campinhas-SP: Papirus, 1987. (Coleção Krisis)

FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. 6.ed. São Paulo: Perspectiva, 1999.

FRAYZE-PEREIRA, João. O que é loucura. São Paulo: Abril Cultural/Brasiliense, 1985. (Coleção                     Primeiros Passos vol. 18)

JUNG, C. G. Presente e futuro. Petrópolis: Vozes, 1988, p.5

ROTTERDAM, Erasmo de. Elogio da Loucura. São Paulo: Martins Fontes, 1997.